# Entrevista com Simone e família - Da série 'Gaúchos pelo Mundo'

Hoje vamos passear por Póvoa de Varzim, cidade próxima do Porto, em Portugal. O texto reproduzido abaixo é da Simone e fala um pouquinho da experiência da família que, em Agosto de 2013, foi-se de mala e cuia (literalmente, rsrsrsrs) atravessar o oceano. 

"Oi, Ana.
Obrigada pelo convite para contar um pouco da nossa história e da nossa experiência em morar fora do Brasil.
Eu nasci em Porto Alegre e, fora uma breve experiência de 3 anos em Santa Catarina, sempre morei no RS. Meu marido, o Pólux, nasceu em Santos, São Paulo, peregrinou pelo Brasil com a família, e a partir dos 8 anos morou sempre na região metropolitana de Porto Alegre.  Quando nos conhecemos ele era professor e eu policial civil e logo que começamos a planejar o casamento ele me perguntou: “Que tal morar fora do Brasil?”. Eu já havia ensaiado essa hipótese antes de ser mãe da Alice, lá pelos idos de 2005 e a ideia estava adormecida, esperando o momento certo (que havia chegado!). Dois fatores permitiam essa ida para o exterior: fator número 1 - Trabalhamos com aulas online para concursos (www.agoraead.com.br), o que nos permite morar fora do Brasil desde que tenhamos acesso à internet. Fator número 2 - Tenho cidadania portuguesa (o que facilitaria as questões de visto e residência). Tendo em consideração estes fatores, nada mais natural que começar os planos por conhecer Portugal e a provável cidade em que moraríamos. Nossa lua de mel foi na cidade de Póvoa de Varzim (40Km do Porto) e quatro meses depois chegávamos à terrinha de mala e cuia (claro!)


Nossa primeira impressão sobre o lugar foi: quanta paz, quanto sossego, quanta sensação de segurança! É, realmente, o fator segurança aqui é quase palpável. As casas (sim, aqui ainda existem MUITAS casas) não tem grades e portões imensos, não se vêem cercas elétricas, câmeras de segurança, portarias 24h, nada disso. Pelas ruas existem caixas eletrônicos sem megassistemas de segurança, sem portas para acesso; são mesmo na parede de algum mercadinho ou do lado de fora de um banco, na calçada (mando uma fotinho pra exemplificar). Por falar em banco, aqui não há portas giratórias, a entrada do banco é com portas automáticas (daquelas com sensor de presença) ou com aquelas portas em que se passa o cartão para abrir fora do horário para acessar o auto-atendimento. Há câmeras de monitoramento mas não há seguranças armados.


Outra grande diferença aqui é o respeito. Em todos os aspectos: nas filas, no trânsito, na faixa de pedestres (que aqui chama-se passadeira), em tudo. Exemplificando: aqui não precisa colocar o pé na passadeira, é só fazer menção de virar para atravessar que os carros param (!). E eles param mesmo, sempre. A Alice vai para a escola (que fica a uns 400 metros aqui de casa) sozinha. Ela tem de atravessar 3 ruas e sempre o faz pela passadeira. É claro que ela olha para os dois lados, aquela coisa, mas temos a tranquilidade de saber que aqui a passadeira é sagrada. E, por saberem que os motoristas respeitam, os pedestres procuram usar as passadeiras para atravessar. É raro uma notícia de atropelamento.
Mais uma coisa bem comum aqui: filas e o respeito pela ordem na fila! Se um caixa de mercado tem a fila muito grande e abre o caixa ao lado para atender o que é normal no Brasil? Aquele empurra-empurra, o último da fila que vira o primeiro no caixa ao lado gerando incomodação e por vezes discussão. Aqui não se vê esse tipo de coisa. No momento que abre o caixa ao lado a pessoa que está lá pela metade da fila sai do seu lugar e é a primeira a ser atendida, isso quando não é incentivada pelos que estão atrás para que seja atendida antes deles. Para nós, isso gerou muito espanto no início.
Esse respeito é percebido também no início de qualquer conversa comercial. Por exemplo, quando chega-se à frutaria ou à uma loja qualquer e se quer uma informação ou pedir alguma coisa. Nós geralmente dizemos: “Com licença, podes me dar tal informação?” e achamos que isso é educado, certo? Errado! Aqui o usual é: “Bom dia/tarde/noite! Podes me dar tal informação?” E se não disser o Bom dia, a resposta será: “Bom dia! (bem frisado) Claro que posso. Tal tal tal.” Ou seja, tem de começar com o Bom dia, caso contrário, vergonha! Eles são muito polidos, usam muito (quase que em exagero) o por favor e desculpas. Qualquer coisa que aconteça é motivo de pedirem mil desculpas, fazendo, por vezes, o constrangimento ser nosso por vê-los a desculparem-se tanto.
Outra grande diferença: a pressa! No Brasil vivíamos sempre com pressa! Pressa de sair de casa para chegar no serviço ou na escola, pressa de passar no super antes de chegar em casa, pressa para ir ao shopping no final de semana, enfim, pressa pra tudo! Aqui isso é quase impossível! E é engraçado também. O açougue aqui chama-se talho e, como as pessoas têm o hábito de comprar carnes no talho (e não no mercado), está sempre cheio. O comum para nós é quando chega a nossa vez pedir rapidinho (de preferência pedindo tudo num fôlego só) pra não atrapalhar o próximo e não demorar muito, certo? Aqui, não! Aqui quando são atendidos pedem uma coisa de cada vez, literalmente. É mais ou menos assim:

Cliente: Bom dia! Gostava de um frango, se faz o favor.
Atendente: Bom dia. Sim, senhor. (mostra o frango para que o cliente escolha) É este?
Cliente: Sim. Quero sem pele, se faz o favor.
Atendente: Sim, senhor. (tira a pele do frango e pergunta) Assim?
Cliente: Sim. Quero aos pedaços, se faz o favor.
Atendente: Sim, senhor. (corta aos pedaços e pergunta) Algo mais?
Cliente: Sim. Quero desossado, se faz o favor.

E por aí vai. O cliente vai pedir uma coisa de cada vez.  E nós, que não estamos acostumados, quase perdemos a tampa, como dizem por aqui! Hahahaha. Com o tempo nos acostumamos e vemos que, deste jeito, eles aproveitam mais cada coisa que fazem, são mais calmos, mais educados, mais pacientes e acabam, eventualmente, por fazer amizade com os funcionários do talho, da frutaria, da pastelaria e por aí em diante.
Fora estes aspectos do dia a dia o que nos marca muito é o vocabulário. Há muitas diferenças, nada de um simples chávena=xícara ou rapariga=menina, tem muita palavra diferente mesmo! Estamos montando uma espécie de dicionário com os termos daqui e seus equivalentes no Brasil e (pasme!) já temos mais de 400 entradas. O sotaque é, também, motivo de muito riso por aqui. Tanto o nosso quanto o deles, apesar de que nós tentando o sotaque ficamos hilariantes, eles aqui fazem o nosso sem tanto esforço. A Alice, por ser criança, estar frequentando a escola e convivendo mais com portugueses, já está pegando o sotaque daqui: fala com os portugueses com o sotaque daqui e conosco com o do Brasil.

Morar fora é bem diferente e dá pra escrever/falar sobre isso durante dias… mas acho que já deu pra ter uma ideia de como é por aqui. Estamos em Portugal há pouco mais de um ano e o saldo é positivo: adoramos viver aqui, o clima não é muito diferente do RS (se bem que faz pouco calor, que eu amo e sinto falta!), as pessoas são educadas, gentis e solícitas. Come-se muito bem por aqui, mas apesar disso, sentimos falta de algumas poucas comidas do RS: um bom churrasco, um megaxis do Cavanha’s, pastelina, pastel de carne (é, desse comum lá, com meio ovo dentro!) e erva para o chimas (sempre que alguém vem do Brasil tem de trazer para renovar o estoque). Sentimos falta dos amigos e da família que ficou no Brasil, mas em termos de qualidade de vida, estamos muito melhores aqui, com certeza! Fica o convite para quem não conhece!

Grande abraço, Simone, Alice e Pólux".

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Obrigada pessoal por aceitarem o convite! Adorei o texto, as fotos e as informações. 
Espero numa próxima contar com vocês para um bom roteiro cultural, o que acham??

Abração e até mais :)

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