O sistema Angel Cradle em Edmonton

Você sabe quantos bebês são abandonados por ano no Brasil? Eu não sei exatamente o número. Algumas pesquisas que fiz retornaram um valor de 42 mil (!!!!!!!!!). (Reportagem SBT Brasil - 2012). Destes, possivelmente uma parte considerável, deve morrer por falta de cuidados. Afinal, toda hora aparece no noticiário algum bebê deixado em caixas de sapatos, sacos na rua ou mesmo dentro de latas de lixo. Dia desses, vi na internet que um havia sido abandonado no telhado de um prédio.

As razões para as mães fazerem tamanha atrocidade variam muito: dependência química, jovem demais, não ter condição financeira, algum distúrbio psiquiátrico ou psicológico, família não permitir, maldade mesmo, etc. 
Mas sem pré-julgar a mãe, qual a melhor forma de proteger este recém-nascido? 

Aqui em Edmonton (Canadá) eles criaram o Angel Cradle,  que nada mais é, que uma porta num hospital (por enquanto tem dois hospitais com o sistema), em que as mães possam deixar seus bebês dentro de um berço quentinho, para que ele seja acolhido. 

foto retirada do site da publicação da notícia


No momento em que o bebê é deixado, acende uma campainha, para que alguém o retire do berço e preste os primeiros atendimentos, sem que exista qualquer identificação da mãe. Neste link  Angel Cradles Edmonton: Safe Haven Baby Drop-Off Sites Open In City Hospitals você pode assistir um vídeo que demonstra como isto é feito. Tem uma matéria bem interessante, que vale a pena ser lida também. 

Uma frase que chama muito a atenção é a de uma das idealizadoras do sistema, Dra. Irene Colliton. Ela diz: "This is a safety net. If it's only used once — or it's used never — then we will have done a good thing." ("Esta é uma rede de segurança. Se ela for utilizada apenas uma vez - ou se isso nunca for utilizado -, então teremos feito uma coisa boa").

Ou seja, eles resolveram primar pela vida (do bebê) à criminalizar uma mãe. Isto é o que penso ser o mais adequado, pois no Brasil, a mulher é constrangida pela própria legislação a largar a criança em algum lugar que não seja vista. Do contrário, ela será presa.

Encontrei uma explicação jurídica bem interessante, no portal Âmbito Jurídico [O abandono no Brasil e a ofensa ao direito ao conhecimento da origem genética, de Carlize Wibrantz e Edenilza Gobbo], o qual diz: 

"(..)Um dos principais motivos para o abandono em vias públicas é o constrangimento da mãe em entregar o próprio filho e, também, por ser considerado crime pelo Código Penal Brasileiro. O Código Penal tipifica como crime o abandono de incapaz e a exposição ou abandono de recém-nascido[3].Neste sentido, observa Almeida (2008), que a criminalização da conduta, na verdade, agrava a situação, pois os genitores, por temor à punição, acabam por procurar maneiras para lançar os recém-nascidos à própria sorte. É essa clandestinidade do abandono que confere maior crueldade e indignidade aos recém-nascidos. Esse abandono feito "às escuras" torna a vida dessas crianças ainda mais vulnerável e exposta a sofrimentos de diversas ordens.A Constituição Federal de 1988 preceitua que é dever da família assegurar a criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à educação, à dignidade, entre outros direitos. Segundo Albuquerque (2008)[4] são normas dotadas de efetividade jurídica e sua inobservância impõe responsabilidades, neste sentido argumenta:“A decisão de entregar um filho em adoção ou a idéia de fazê-lo pode ter vários significados, desde aceitar a impossibilidade de criá-lo, ou aceitar a frustração do amor e do desejo de maternar. O significado deste termo o difere da maternidade. Enquanto este diz respeito à procriação, à esfera do biológico. Àquele é inscrito no âmbito sócio afetivo da criação dos filhos, pertence à esfera social no universo relacional/interacional entre mãe e filho.”É possível suscitar, conforme Albuquerque (2008), duas ordens de motivação: a entrega da criança e o abandono propriamente dito. Sem dúvida tanto a entrega quanto o abandono propriamente dito são espécies do gênero abandono, mas cada qual apresenta dimensões distintas e reflexos no tocante à integridade psíquica do filho. Chega-se a uma encruzilhada, de um lado a sociedade tipifica como crime o abandono, de outro há a omissão do dever de garantir os princípios constantes na CF/88, bem como a censura e discriminação quando a mulher resolve entregar o filho. (...)"

Desta forma, vemos como é difícil assegurar o bem-estar de um recém-nascido que será abandonado por sua genitora. Enfim, há muitos questionamentos a serem feitos. Inclusive por aqui, isto não é uma unanimidade. Muitos questionam este sistema, pois acreditam que de alguma forma, incentiva o abandono. Para estes, melhor seria orientar às mães e ajudá-las de alguma forma a criar seus filhos. 

No Brasil, já tivemos algo parecido: a Roda dos Expostos. Era uma portinha giratória, a qual ficava nas Igrejas ou em hospitais, e que tinha justamente este cunho assistencialista, tal como as Angel Cradles. No artigo jurídico mencionado anteriormente, a Roda dos Expostos é melhor explicitada:
"E o abandono de crianças não é fato recente. No Brasil, um modelo inspirado na tradição européia foi implantando como forma de garantir o acolhimento de recém-nascidos abandonados, bem como manter o anonimato de que os ali deixasse, conhecido como Roda dos Expostos. Tratava-se de um compartimento giratório instalado geralmente em igrejas e hospitais onde a criança era abandonada do lado de fora, e a mãe, girando a estrutura permitia que do outro lado a criança fosse recepcionada sem que fosse identificada. (...) A última Roda dos Expostos a ser desativada, em 1948, foi na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, que acolheu durante o tempo de seu funcionamento cerca de 5.700 crianças. Porém, de cada dez abandonadas três morriam, pois eram entregues já doentes ou desnutridas, observa Almeida (2008)". 

Voltando a falar de como é o sistema em Edmonton, eu descobri o acolhimento dentro de um ônibus, onde havia algumas informações.

Ou seja, você não precisa passar por constrangimentos para saber algo a respeito. Basta ter internet ou um telefone disponível. Sei que na Província de Alberta só existe Angel Cradle aqui em Edmonton. Vi que estão querendo implementar em Toronto (Província de Ontário). e sei que na China, também há este tipo de sistema.

Pessoalmente não sei se de fato é a melhor alternativa. Se legitima o abandono ou não. Mas fiquei profundamente tocada por simplesmente colocar a vida de um ser humano acima de qualquer julgamento moral ou religioso.

Isto é um tanto controverso num país em que se admite o aborto. Sim, há uma flexibilidade bem grande para a mulher que resolve fazê-lo. Não é um direito constitucional e pelo que entendi, as regras variam muito de uma Província para outra.

No metrô (ou melhor, LRT), há um cartaz bem grande da edmontonprolife.org, falando sobre o aborto em Edmonton (Província de Alberta). No site deles,  há algumas informações sobre o tema. Neste site aqui, diz que em Alberta, os abortos são realizados com até 20 semanas. 

Ou seja, podemos partir do princípio de que se a genitora não quer a criança, a solução mais fácil para ela seria abortar. Pode ser. Mas ainda acredito que a acolhida feita a recém-nascidos seja necessária para aquelas que resolvem por alguma razão manter a gravidez.

De acordo com o Metro News, após 9 meses aberto, o Angel Cradle do Grey Nuns Hospitals não recebeu nenhum bebê. Mas bem como uma das idealizadoras disse, se uma vida for salva, acredito que já tenha valido a pena.

Para mais informação de como funciona o Angel Cradles: 

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E você, o que pensa a respeito? Funcionaria no Brasil?
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Obrigada pela visita.


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CONVERSATION

4 comments:

  1. Muito boa essa idéia. ..pena que nem todos pensem assim
    ..muito boa tua matéria tá de parabéns!!!!

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    1. Verdade... iria salvar muito recém-nascido no Brasil, já que o aborto também não é permitido por lei. E obrigada!!! Beijos

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  2. Com certeza seria maravilhoso se tivesse este sistema em todas as partes do mundo.
    Apesar de acreditar que as pessoas fazem isso por maldade mesmo!
    :/

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    1. Pois é... contra a maldade humana não tem muito o que ser feito. Infelizmente. :(

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